Convento Nª Senhora da Glória

37° 6' 20" N
8° 40' 40" W

Convento de Nª Senhora do Loreto
Convento de São Francisco
Convento dos Capuchos


A (Custódia) Província da Piedade chega ao Algarve
Convento da Nossa Senhora do Loreto
Convento de São Francisco
E a Nª Senhora da Glória?
E depois?

A (Custódia) Província da Piedade chega ao Algarve

Depois dos primeiros quatro conventos dos frades Franciscanos Capuchos da Província da Piedade construídos entre 1500 e 1505, o Bispo do Algarve Fernando Coutinho, transferido para o Bispado de Silves em 1502, pretende encontrar 4 sítios no Algarve para fundação dos primeiros conventos da Província da Piedade no Algarve - estavamos em 1515 (na época era ainda Custódia tendo sido erigida a Província apenas em 1517). Pretendia-se um sítio no Cabo de S. Vicente, outro em Lagos, Silves e Faro. Em 1516, chegam os primeiros frades ao convento do Cabo de S. Vicente, o primeiro a ser habitado por já estar construído.

Convento da Nossa Senhora do Loreto

O convento de Lagos é construído em 1518 em terrenos comprados pelo Bispo. Foi neste mesmo ano que os frades chegaram a Lagos e é fundado, pelo Bispo, o convento com devoção a Nossa Senhora do Loreto. Esta devoção deve-se a que após uma doença gravíssima que o Bispo sofreu enquanto estudava em Florença, pediu a Nossa Senhora do Loreto pela sua saúde e, tendo-se curado, todos os anos enquanto estudante em Itália visitava esta Casa da Senhora do Loreto.

LoretoEm 1520, quando o convento é completamente terminado, o Bispo Fernando Coutinho, que pretendia assegurar que nenhum outro religioso da mesma ou de outra ordem tirasse os frades Capuchos dos seus conventos no Algarve, faz uma doação dos conventos de São Vicente, Lagos e Silves e demais cercas ao Rei D. Manuel por carta de 21 de Julho deste ano de 1520. Esta doação era feita no termo em que o Rei D. Manuel desse os conventos à Província da Piedade para que os seus frades neles habitassem para sempre. Os Frades Menores, como é o caso dos frades Capuchos da Ordem de S. Francisco, não recebem nem têm propriedades mas todas as ofertas e construções que lhes eram feitas eram imediatamente propriedade da Igreja, e Sumo Pontifice Romano (Papa), com os termos da doação o que asseguraria a continuação destes 3 conventos na Província da Piedade no Algarve.

O convento era pequeno como era norma dos conventos construídos por ordem dos frades franciscanos capuchos, e de materiais baratos. Situado perto do rio, em terras de grande insalubridade, as doenças eram frequentes e vários foram os frades que ali acabaram por falecer. O próprio convento estava a ficar degradado e começava a ruir. Assim, em 1560 dá-se início às obras de um novo convento, um pouco mais a poente, mais afastado do rio e em terreno mais elevado: o local onde permaneceu até à sua extinção.

Convento de São Francisco

Não havendo por perto outro convento, sendo este o único que os habitantes da cidade poderiam visitar nas imediações, a pressa na conclusão das obras era muita, mas foi possível contar com as esmolas de todos os que puderam ajudar. Foi também pedido ao Provincial Frei Christóvão de Abrantes que este convento tivesse dimensões maiores do que o habitual por forma a receber tanta gente, pedido este que foi concedido.

Apesar da contrução do novo convento, o antigo continuou a existir com uma capela da Senhora do Loreto, assim, o novo convento obteve outro nome: Convento de São Francisco.

Em 1587, Francis Drake a mando da Rainha que se encontrava em contendas com o Rei Filipe II de Espanha, tenta atacar a cidade de Lagos, mas estando esta bem defendida, chega ao Cabo de S. Vicente para aqui se vingar. Os frades do Convento de S. Vicente, trazendo os objectos de maior estima, fogem apressadamente para Lagos onde se abrigam.

E a Nª Senhora da Glória?

O nome de Nª Senhora da Glória surge já no Séc XVIII e deve-se a que...

Na véspera de Natal do ano de 1708, dois desconhecidos batem à porta do Convento de S. Francisco pedindo aos frades fossem buscar uma estátua de Nossa Senhora que aparecera na praia de Lagos. Meio desconfiados, mas curiosos, os frades dirigiram-se à praia para onde se dirigia também uma grande multidão, e lá encontraram uma caixa grande que dentro tinha uma estátua de uma Nossa Senhora com coroa de prata que dois anjos alados simulavam suster.

Estátua da Nossa Senhora da Glória encontrada na praia em LagosOs frades transportam-na então para o seu convento mas estando a caminho são interpelados pelos padres da colegiada de São Sebastião. Estes, que pertenciam à igreja sede da freguesia de São Sebastião à qual a dita praia pertencia, alegavam que a estátua deveria pertencer à igreja de São Sebastião, já os frades franciscanos consideravam que a estátua deveria ir para o Convento de S. Francisco visto terem sido eles os chamados a irem buscá-la e a lá chegar primeiro. No meio de tal discussão, o povo vai levando a estátua em direção ao Convento tendo-se os religiosos apenas apercebido quando já discutiam a pertença da estátua sózinhos. O prior da Igreja Matriz manda então uma carreta com dois bois para trazer a estátua do convento, porém, nem os bois a pareciam querer ir buscar oferecendo resistência na caminhada. Como se não bastasse, parte-se também uma roda da carreta e o povo, que assistia, grita então "A Nossa Senhora quer ficar no Convento!" e assim foi.

Um sobrevivente na Nau Falcão, que transportava a estátua, relata que a nau naufragou quando se confrontou com uma enorme tempestade no dia 21 de Dezembro de 1708 e muitos morreram tendo a Nau ficado completamente destruída e apenas ficado intacta a caixa com a Nª Senhora. Conta também que a estátua foi feita por António Caminha no Rio de Janeiro e era oferta ao Rei D. João V a fim de se construir em Portugal uma igreja com devoção a Nossa Senhora da Glória. Contudo, António Caminha não vinha na nau por ter sido preso pelas autoridades quando já estava a bordo, mas a nau partiu rumo a Portugal.

A Casa de Bragança, curiosa desta história, escreve para o Brasil pedindo mais informação e a resposta chega dois anos depois. António Caminha, natural de Aveiro mas residindo no Rio de Janeiro, pertencia à Ordem de São Francisco. Nesta cidade havia uma gruta natural onde estava uma imagem de Nossa Senhora. António Caminha, terá edificado ali uma Ermida onde foi colocada a imagem da Nossa Senhora por volta de 1670. Enquanto o povo já venerava a Nossa Senhora da Glória, desde que ainda estava na gruta, Caminha dirigiu-se à floresta para cortar uma árvore e fazer uma estátua de grandes dimensões que pretendia oferecer a D. João V.

Obs.: Em fontes brasileiras encontro que Caminha fez uma estátua para a Ermida e uma réplica para Portugal, mas nas fontes portuguesas encontro que fez uma estátua de Nossa Senhora da Glória, maior do que a ali existente para enviar para Portugal. Se ele realmente fez duas uma para o Rio de Janeiro e outra para Portugal, então não era a estátua que se encontrava na gruta a venerada na Ermida? Até novas informações, parece, sem certeza, que ele terá feito apenas uma estátua maior da já existente imagem venerada na gruta.

António Caminha a esculpir a estátua da Nossa Senhora da Glória

Quando cortava a árvore, aparecem dois desconhecidos que se prontificam a ajudá-lo dizendo que são, também eles, escultores. Terminada a estátua, quando Caminha se prepara para pagar a ajuda prestada os dois desconhecidos desaparecem. Não havia ainda posses para poder realizar a viagem a Portugal, por isso, enquanto amealhava o suficiente para o poder fazer, deposita a imagem esculpida na Ermida da Nossa Senhora da Glória que construiu e o povo aumenta o louvor a esta Nossa Senhora de grandes dimensões. Quando finalmente pode dar início à sua viagem, e já com a estátua embarcada na Nau Falcão, o povo, que era já tão devoto à quela imagem na sua Ermida, interpretou o fato de Caminha a transportar dali como um furto à Ermida e apresentou queixa às autoridades que prontamente sobem a bordo e levam António Caminha preso. Ainda assim, a Nau falcão seguiu caminho com destino a Portugal.

Foram atribuídos inumeros milagres a este convento, tanto a São Francisco como mais tarde à Nª Sra da Glória, trazendo ao local muitos devotos, tanto de todo o Portugal como de Espanha.

Em 1714, já com o caso da estátua aparecida na praia deslindado, o Convento de São Francisco continua a albergar a estátua e é mudado o nome do Convento para Nossa Senhora da Glória.

Tal como grande parte das edificações algarvias, também este convento sofre grandes danos com o terramoto de 1755, sendo posteriormente reedificado.

Em 1833, perante a guerra civil entre liberalistas e absolutistas, estando a cidade cercada pelas forças de José Joaquim de Sousa Reis, houve uma sessão municipal a fim de se salvaguardar o que havia fora de muros, incluindo a estátua da Senhora da Glória. Com a ajuda do povo conseguiram afastar os sitiadores e foi então levada a estátua para a Igreja de São Sebastião, onde até hoje ficou. Em 1834, foram extintas as Ordens Religiosas e, por consequência, o Convento.

E depois?

Em 1897, a junta da paróquia da freguesia de S. Sebastião pede ao Ministério dos Negócios da Fazenda que lhe seja concedido o edifício do convento já em ruínas para aí fundar um asilo de albergue de mendigos, o que foi concedido em 9 de Fevereiro de 1897 provisóriamente aguardando-se aprovação das Cortes, que veio a obter.

Em 1911, de uma parte do convento, são criadas as instalações da GNR.

Cerca de 30 anos mais tarde, com a demolição das antigas paredes, outra grande parte do convento é transformada em Cadeia com arquitectura de José Ângelo Cottinelli Telmo.

Em 1969, um sismo danifica o edifício.

Entretanto desactivada a Cadeia, o espaço é revitalizado pela chegada de uma associação cultural: o LAC – Laboratório de Actividades Criativas, formada em 1995 e que desde 2001 tornou-se numa estrutura que permite albergar anualmente projectos individuais e colectivos em áreas tão diversas como a música, pintura, escultura, e/ ou outros projectos de cariz alternativo e não comercial. Não deixa de ser curioso que o edifício, de autoria de um arquitecto e também artista de várias áreas nas quais não se destacou, seja agora a casa de várias obras artísticas e culturais. Não singrou nas artes mas criou o local que é hoje um ninho de artistas... Homenagem do destino?!

Existe ainda uma parte do antigo Convento, mas praticamente escondida por novos edifícios.

Obras consultadas

Livros:
- Chronica da Provincia da Piedade - Fr Manoel de Monforte, 1696, ed. 1751
- Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, Tomo III - António Carvalho da Costa, 1712
- Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica - Barbosa Machado, 1741
- Curiosidades da Nossa Terra Lagos - prof. Crisanto Correia, 1977, ed. BV de Lagos.
- A general history and collection of voyages and travels, arranged in systematic order - W. Blackwood, 1812
Sites:
- radix.cultalg.pt (Ministério da Cultura)
- www.monumentos.pt
- rememorarte.blog.br
- www.outeirodagloria.org.br
- www.centrodacidade.com.br
- www.a12.com/
- www.loreto.org.br/
- marcioreiser.blogspot.com
- www.alamedadigital.com.pt
- www.lac.org.pt
- http://www.loc.gov
- http://www.arqnet.pt
Outras:
- Cataldo - Américo Costa Ramalho 2002 (Intervenção no colóquio internacional Humanismo Latino na Cultura Portuguesa)
- Património arquitectónico – Edifícios conventuais capuchos - Paula Figueiredo, Coordenação: João Vieira e Manuel Lacerda, IHRU e IgesPar, Documento provisório, 2010
- A Arquitectura Capucha da Província da Piedade - Victor Joaquim Fialho Medinas, 1994